consciência póstuma
24/12/2009
Sua rotina era comparável a nada. Passava o tempo arrumando as flores, observando os buracos indesejados, vigiando o lúgubre encontro marcado. Ela sentia o frio do mármore molhado nos dedos dos pés, e isso sequer era uma contradição. Com sua serenidade calada, carregava altas asas oscilantes. Ali não era sua casa, não era vida nem morte. Um meio termo pleno, que prosseguia para imaginar suas histórias e assistir a outras. Por tanto desejar ser humana, sua imagem se convenceu em usar um longo vestido negro, longos cabelos ruivos e pele extremamente pálida. Os belos monumentos davam um acabamento melancólico ao último berço. A última sístole era resumida em matéria pútrida. Ela fazia parte de uma combinação tão bonita que mal chegava a ser tétrica. Não importava se o fim era com morfina, sem anestesia, com dor, sem despedida, suprimido ou renunciado; ela estava sempre ali com sua invisibilidade. E para ela, restava uma incógnita.
Ela amou um dia, mas nunca pôde entender o porquê daquele excesso de gotas salgadas que despencavam ligeiramente nos dias tristes. A dor não deveria ser estancada, mas sim o desespero. A morte é apenas a ausência. A tristeza assassina o pouco que resta do morto no interior dos viúvos. Os sonhos não devem ser prisioneiros das duras lápides, nem do medo de não caminhar. A perda intolerável deve dar outro contorno à vida. Ela sabia que a desistência daquilo que se ama era o único fim. Engolia em seco, pois não sabia equilibrar os corações em luto que não sabiam aceitar o efêmero. Sim, um jogo sem sábios, onde todos transpareciam a fragilidade de um mortal. Ela não sabia o que era, mas queria passar o pouco que sentia sobre isso. Era pouco porque não conhecia seu passado, sua história, seu objetivo. Talvez uma alma, uma imagem desconhecida, um alguém, um anjo. Queria saber controlar a emoção do cemitério, onde costumava entender os humanos para encontrar sua origem, encontrar a vida a que pertencia.
Paixão em nostalgia
08/12/2009
Como todos os anos, eu estava presente. Dessa vez foi diferente. Eu estava ali de algum jeito. Eu e minha caixa de lenços. Entrei por onde não costumava entrar. Provei o cheiro de teatro não mais como essência de rotina. Era novidade um nó apertando todos meus sentidos.
Vi o lugar cheio de silhuetas das quais eu preferia não identificar. Não hesitei e escolhi a última poltrona da última fileira. A que me sobrava. O que eu tinha fez-me decidir que aquele era o melhor lugar feito para mim.
As cortinas explodiam em veludo vermelho, a meia luz estonteante fazia a atmosfera leitosa, os solos de piano sugeriam um prólogo de canção de ninar.
Era tudo tão familiar.
Era o meu sentir, plenamente único. Tão único que tamborilar os dedos de ansiedade no assento era desmerecido.
Lembro-me das coxias que permitiam breves espiadelas para o lugar que te esperava. Uma das melhores partes era estar na coxia, era lá em que a euforia deixava o esperado momento mais gostoso.
Apagam-se as luzes, se despedem os acortinados.
5, 6… 5, 6, 7, 8!
Poucas horas de devaneio para sonhar. Absorva cada encanto.
O cenário, as personagens, a sonoplastia, o figurino, a maquiagem, a fotografia, a estória, a dança.
Tão fascinantemente alinhado, que qualquer lucidez levaria o roteiro quebrar a fantasia. É arte. Você faz da metodologia, o enleio.
Custar a acreditar só ajuda a enriquecer a arte final.
No palco, a personagem pode ser você ou quem você quiser.
A platéia, você enxerga se desejar. O implicante é curtir aquilo tudo.
Não é técnica, é emoção.
E é claro… você estava lá.
E é claro… aquela luz cabia impecavelmente em seu rosto, em cada linha de sua expressão calculada. Que lógica incansável!
A verdade é que sua cautela para não amassar o figurino foi exagerada, os ensaios, as repetições, a visão obcecada do perfeccionismo.
Sua sapatilha apertada fez coleções de calos, mas você não cansou para descansar.
Você repetia para si as mesmas frases imperativas: Não perca o foco. Não fique tonta. Não olhe para o chão. Não saia do ritmo da música. Não caia.
Mas decaia.
Eu estava lá, olhando para você, com um sorriso envolto em lágrimas.
Eu conhecia tudo aquilo, de todos os jeitos.
O que eu sentia se resumia em dois caminhos que se interceptavam contraditoriamente: O palco e a platéia.
Não basta um chão de madeira, um espelho, e alguns taquinhos de metal.
Não importa se você se preparou vários meses para cinco minutos ou para uma hora. O resultado é mais seu do que de qualquer outra pessoa. O que se transmite só está dentro de você.
Aproveitar: esse é o dilema do artista. Ama-se o que se faz. Ou você ama, ou você não entende.
Os aplausos viriam como bênção.
Eu aplaudia você em pé… com um sorriso envolto em lágrimas…
É, essa minha emoção parece eterna.
Prólogo
02/12/2009
O brilho do sorriso e as lágrimas suicidas faziam sua viagem menos monocromática.
Ela carregava um arco-íris debaixo do guarda-chuva.
A procura por ouro no asfalto não seria em vão.
segunda nota
02/11/2009
Tudo é superficial, passageiro, relativo, influenciável, clichê.
Eu, blasé.
“O infinito é realmente um dos deuses mais lindos.”
um quase haicai
28/10/2009
mais chá?
sim, chá de anis.
céu de anil?
anis estrelado.
primeira nota
15/10/2009
Minhas maiores lágrimas derramei diante do espelho. Foi aí que eu percebi. Eu tinha uma força. Não estava só em mim. Mas também em meu reflexo.
querida boneca…
26/09/2009
Garota, você deixou toda aquela catatonia para trás. Os olhos de botões você perdeu. Onde foi parar? E o seu sapato de verniz? As tranças não são mais de mentira. Agora é de verdade a coreografia. Bem… vou parar de enrolação, o ponto em que eu quero chegar é: Você tem até o amanhecer. Tem até lá para decidir se trocará seu coração de algodão. Você nunca ficou bem na estante de ninguém, mas era a melhor forma de não pecar e acabar como refém. Evite uma tragédia. Esse novo coração não vem com armadura e pode não durar… Está facilmente exposto a agressivas fissuras. Se for mudar, lembre-se: é muito difícil controlá-lo em um estável batimento. Você sofreu com toda essa vida de boneca, mas o amor é o maior sofrimento. 
se aguenta, que eu vou pro meu lugar
18/09/2009
Opção fosse antes de escolher,
não escolhi.
Depois disso, não faço nada além de obedecer,
aqui e ali.
Enquanto minha mão é gelada,
meu coração é quente;
quer dizer a mesma coisa,
mas num diferente ambiente.
Meu coração não bate, treme.
Sei o que eu quero hoje,
e não quero aquilo que eu queria.
Minha energia tinha voltado,
mas você insiste e desliga.
Harmonia era tudo o que eu mentia.
Desacerto: meu poço de magia.
Você vem, e sintoniza.
Tudo está muito óbvio e recíproco.
Prefiro seu gosto ardido.
Descarto seu marca-passo,
Quero mesmo é minha falta de equilíbrio.
Não vou dividir meu espaço,
Corra logo daqui, doce inimigo.

ps.: há intertextualidade no título, pra quem escuta Los Hermanos.
botões
13/09/2009
da semente, o resultado.
ou num paletó azul escuro está guardado.
uma flor ou um pecado.
desabroche, destino assíduo.
é só isso, não importa nada.
abra.
já se fora seu veraneio puro.
Sempre carregou seu olhar marejado, sem rumo. Perdido no tempo, em outro mundo. Seu horizonte desperta agora em negro. Íris de azul profundo, ou será verde? Não, é morto em castanho escuro. Esquecido no último naufrágio, afogado em seu último vestígio. Agora seu olhar é baixo, encerrado de um humilde castigo. Trajetos em círculos dão tontura sem navegar. Acerta hostilmente, porque errado é pensar. Queima-se em sal, veste-se em areia, banha-se de sol. Nada de tubarão ou água-viva. Seu vilão é a maré, oscilante, sem clemência qualquer. Na orla, seus remos/pálpebras o fazem continuar, mas ele não sabe se quer voltar. Prefere o descanso despreocupado de um pirata, um dentre tantos, resiste em seu último. Se mata. Lança a âncora, capitão. Seus olhos agora descansarão.